segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Gentili e 4chan: como a deturpação do humor está reinventando a extrema direita.



Em agosto desse ano, a cidade americana de Charlottesville, Virgínia, ganhou as manchetes do mundo todo por sediar um protesto de suprematistas brancos. O evento ficou marcado por imagens chocantes como saudações nazistas, tochas de fogo (em alusão a Ku Klux klan), além de muito racismo e antissemitismo. Entre os organizadores estava Richard Spencer,um dos maiores expoentes da denominada Alt Rigth, grupo de extrema direita, que apoiou a campanha de Donald Trump e possui, atualmente, representantes em seu governo. A Alt Rigth se apoia em princípios radicais: são antifeministas, anti-imigrantes, antisemitas , islamofóbicos e supremacistas. “Sou nazista sim”, afirmou um homem à reportagem da BBC que cobria a manifestação em Charlottesville. Esse grupo teve seu embrião em um site de humor politicamente incorreto há cerca de uma década: o 4chan.

O 4chan é um site, fundado em 2003, onde os usuários fazem postagens e comentários sempre de forma anônima, em formato de fórum. Com o tempo, as postagens, sempre encobertas pelo anonimato, começaram a tornar contornos anárquicos e um novo tipo de humor nasceu por ali. Os memes de internet como os conhecemos e até o os influentes “anonymous” são fenômenos surgidos no submundo dos fóruns do 4chan. Aos poucos os usuários foram se organizando e realizando encontros presenciais cada vez mais frequentes. O site começava a se tornar um movimento político.






O quadrinista e escritor Dale Baran explicou como um grupo de nerds anônimos se tornou uma importante força política nos EUA. Inicialmente fizeram seu primeiro protesto contra a Cientologia. Mas o protesto não era contra a religião em si, mas sim contra ato de eles terem retirado da rede um vídeo de Tom Cruise que havia viralizado. Ou seja, a igreja tinha impedido o grupo de “zoar” da forma como eles bem entendessem. Depois da Cientologia, qualquer movimento, que eles considerassem politicamente correto, e tentasse restringir qualquer piada (por serem machistas, racistas ou até mesmo nazistas) o grupo atuaria severamente contra. “O 4chan queria o direito de fazer o que bem entendesse. Sempre que grandes sistemas organizados atrapalhavam esse seu “direito” o grupo se opunha a eles”, disse Baran em seu artigo 4chan: The Skeleton Key To The Rise Of Trump. Hoje a Alt Rigth possui como símbolo o mesmo meme que representa o 4chan: o bizarro Pepe the Frog.

No Brasil, também temos uma nova - e radical - direita em plena ascensão. E não há dúvidas que o humor possui uma influência direta na moldagem desse novo grupo. Humoristas, ao reivindicarem o direito de fazer piada com tudo, atacam grupos feministas, do movimento negro e todo tipo de minoria, sob a acusação de fazerem “mimimi” (um dos piores neologismos desses tempos digitais). Danilo Gentili parece ser o maior expoente desse suposto humor anárquico. Exemplos bizarros não faltam: ironicamente, ofereceu bananas a Thiago Ribeiro, jornalista negro que o criticava; afirmou ter confundido a senadora Regina Sousa – também negra – com a “tia do café”; em uma postagem no twitter, reforçou a cultura do estupro: “um cara esperou uma gostosa ficar bêbada para transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá a um cara desses: gênio”. Assim como nos EUA, quem criticou as piadas de Danilo foi fortemente agredido, de maneira fascista e autoritária.

Gentili poderia ter enterrado sua carreira depois desses “deslizes”. Mas, como mencionamos, uma nova direita está em ascensão no país. O Humorista tem quase 16 milhões de seguidores no Twitter e incríveis 13 milhões de seguidores no Facebook. Por pressão de Gentili a folha demitiu recentemente um repórter que o criticou. Ele tem carta branca no SBT para maldizer tudo e todos em seu programa de entrevistas. Não é fácil bater de frente com quem fala para tantas pessoas. Mesmo aquilo que tenha sido falado seja recoberto de preconceito, bullyng e intolerância. Ainda não podemos comparar os efeitos das “piadas” de Gentili com as manifestações organizadas pelo Alt Rigth nos EUA. Entretanto não custa lembrar que há muito pouco tempo os membros desse grupo apenas reivindicavam o seu direito de fazer piadas politicamente incorretas na internet.

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