segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A fantástica imunidade branca de Aécio Neves


Nada, absolutamente nada, deveria deixar o brasileiro mais chocado que a ampla imunidade concedida ao longo dos anos a Aécio Neves (PSDB/MG). Nem mesmo tragédias recentes, como o golpe parlamentar, o bunker de Geddel e o fatídico 7x1 para a Alemanha adquiriram contornos tão surreais e inacreditáveis como a insistência de nossos sistemas jurídico e político em safar o senador tucano. Na próxima terça-feira, 17, o Senado deverá concluir mais um vergonhoso capítulo iniciado, de forma vexatória pelo STF, no último dia 11: devolver o mandato de Senador a Aécio. O processo será ainda mais bizarro, caso a Casa vote de forma secreta. Tratando-se de Aécio, é pagar para ver.


A votação no Senado deverá, em tese, ser aberta, em cumprimento de decisão judicial, proferida pelo juiz Marcio Lima Coelho de Freitas, do Distrito Federal. No entanto existe um grande temor de que o Senado descumpra a decisão e realize a votação fechada, para blindar, também, os aliados ocultos de Aécio. O próprio presidente da Casa, Eunício Oliveira, já manifestou seu desejo de fechar a votação. O temor de descumprimento é tão grande, que já houve senador da oposição entrando com mandado de segurança no STF para garantir a votação aberta, mesmo com a garantia jurisdicional. O senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP), destacou o posicionamento do próprio Aécio em casos semelhantes no passado em um trecho da petição: “por ironia do destino, justo o senador Aécio Neves da Cunha, além de votar pela manutenção da prisão decretada em desfavor do então senador Delcídio Amaral (PT-MS), recorreu, ele próprio, ao STF, pela via mandamental, para requerer provimento cautelar da Corte no sentido de impedir ao então presidente Renan Calheiros (PMDB/AL) que procedesse à votação suspensiva da aludida prisão por meio do voto secreto

Cumpre destacar que não seria a primeira vez que o Senado desobedeceria a Justiça para salvar seus membros intocáveis: em dezembro de 2016, a Mesa da Casa decidiu ignorar uma decisão do Ministro Marco Aurélio de afastar o então presidente do Senado Renan Calheiros. Não houve qualquer punição a membros da Mesa ou a qualquer senador, naquela ocasião.

Mas ainda que a votação seja aberta, o resultado já é esperado: Aécio deve ter de volta suas prerrogativas e sua liberdade que foi, parcialmente, cerceada. Desde o dia 26 de setembro, ele está com seu cargo suspenso, passaporte apreendido e está proibido de sair à noite, por decisão proferida em caráter cautelar. Na semana passada, o STF esquivou-se de sua competência e transferiu a responsabilidade do futuro de Aécio ao cooperativismo peculiar das Casas legislativas, ao considerar necessário o aval do Legislativo para afastamento de congressistas. Como sabemos, o Senado não tem a menor vergonha de salvar o “mineirinho”.  Ainda nesse ano amargamos o inacreditável placar de 11x4 na comissão de ética, decidindo por arquivar definitivamente o pedido de cassação de mandato de Aécio.

Ao longo da última década, foi uma infinidade de processos arquivados ou prescritos do tucano, que continua a exercer um dos maiores cargos da República e disputou de forma muito competitiva o maior cargo do país em 2014. Ironicamente, sua campanha para presidente foi fortemente marcada por um discurso moralista e hipócrita contra corrupção, mesmo sendo ele mesmo, um dos políticos mais corruptos do país. Aécio já se livrou de acusações de ser o grande articulador do esquema de Furnas, teve arquivada a acusação de ter recebido propina em delações de diversos delatores da Lava Jato e nem mesmo uma gravação pedindo propina e fazendo alusão a assassinato foi suficiente para impor alguma punição definitiva a ele. Aécio Neves é intocável na república do golpe.

Ainda existem ao menos mais 2 inquéritos contra ele tramitando no STF, os de número 4246 e 4244. Mas ele não deve estar muito preocupado, pois o relator é seu amigo de longa data, o Ministro Gilmar Mendes, que já foi flagrado, inclusive, em conversas nada republicanas com o Senador, gravada pela Polícia Federal em maio desse ano. Nada parece ser capaz de parar o “mineirinho”: sua imunidade branca é completa e absoluta. Só nos resta saber até quando essa situação será referendada pelas ruas que assiste a essa bizarra redenção com um silêncio mórbido e assustador.


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